Texto publicado por Jean-Frédéric Pluvinage, diretor da FoxTablet, na Revista da Acadil 2025.
Dedicado à Prof.a Paula Piotto
Hoje eu voltei da morte. Ou talvez ontem, não sei bem.
Uma luz distante me ilumina. Eu abro lentamente os olhos e observo uma pequena lagartixa, escalando paredes de pedra. Estou em uma caverna cheia de sombras. Me sinto um estrangeiro em uma terra distante. Estrangeiro até de mim mesmo. A minha ressurreição é sem sentido, assim como foi a minha vida. Começo a relembrar de tudo em relances: minha infância miserável na Argélia, muitos estudos, a filosofia, o jornalismo, o teatro e o ativismo político, uma tuberculose quase fatal, a ida para Paris, a defesa nos jornais por um mundo mais justo e livre, a resistência contra os nazistas, a quebra de uma amizade, anos de silêncio, o retorno à escrita, um prêmio de literatura, a necessidade de pegar o trem para uma viagem, um editor de livros que oferece uma carona com seu carro de luxo, a estrada em alta velocidade, a derrapagem, a árvore, o absurdo. Fecho os olhos novamente.
Uma luz distante me ilumina. Ainda estou na caverna sombria. Abro os olhos com vigor. Se voltei mesmo para a vida, então vou tirar dela o máximo novamente. A caverna é enorme e começo a explorá-la. Logo descubro que é habitada de modo peculiar: vejo alguns homens de toga, outros usando perucas brancas e trajes renascentistas, há monges e árabes da Idade Média conversando entre si, há até pessoas com roupas mais modernas que as minhas. Na maioria, são homens brancos, europeus, há poucas mulheres. Alguma seleção questionável houve aqui. Após um olhar mais atento, começo a reconhecer cada pessoa. Relembro suas faces em ilustrações, pinturas, estátuas e fotos. São filósofos. Todos conversando em pátios abertos entre as estalagmites. Por que estou nesse estranho grupo? Nunca me considerei um deles. Nunca quis revelar um princípio universal ou alguma verdade sistemática. Alguém acreditou que eu fazia parte deste lugar. Dou de ombros e fecho os olhos, mais por hábito do que pela necessidade de sono.
Uma luz distante me ilumina. Parece ser um novo dia, mas o tempo aqui não faz sentido. Cada minuto parece durar uma eternidade, é como se o futuro não existisse, apenas o eterno presente. Não que eu me incomode com isso. Sempre vivi o presente, sem nenhum desejo ou esperança pelo devir. Mas o agora é perturbado pelo som de trombetas. Todos os filósofos que encontrei se aglomeram para ver guardas armados que surgem em sacadas antes vazias e, entre os guardas, um homem alto e de largos ombros, com uma toga ricamente decorada e um cetro na mão. Sejam bem-vindos, amigos da sabedoria, aqui é o seu rei – esbravejou com pompa o aristocrata. Um longo discurso tolo sobre a realidade das coisas se seguiu. Depois de longas falas sobre a perfeição das formas, um desabafo da situação: ele, grandioso nobre que era, conseguiu criar uma caverna, fora do espaço e do tempo, reunindo todos os que considerava aptos para fazer sua sociedade perfeita (palmas). Minha nota de rodapé editorial: era um empreendimento que ele tentou na cidade de Siracusa. Falhou miseravelmente, sendo até vendido como escravo no fim de sua empreitada. Esta caverna é agora sua nova tentativa, o centro da sua república de Atlântida, governada apenas por filósofos. Pois somente os filósofos veem o real por trás dos sentidos – declamou o pretenso rei, elevando seu cetro ao alto. Eram gestos vazios. Observei ali nada mais que o velho apelo dos tiranos: obedecer a doutrina do governante, aquele que se coloca detentor da verdade e, portanto, de todas as vidas. O feudalismo com roupas de nação moderna. Dou de ombros e me distancio daquela performance.
Uma luz distante me ilumina. Me vejo agora cercado de guardas. Parece que o rei, o mito da caverna, não aprecia o contraditório e a rebeldia. Mas ele quer se mostrar misericordioso comigo. No pátio principal deste inferno subterrâneo há agora uma enorme pedra, rudemente esférica, do tamanho de um homem. Ele a aponta para mim e ordena que eu a empurre, para cima, para baixo, ao redor da caverna inteira, pelo eterno presente. Ou enquanto me recusar a ver com os seus olhos não-sensíveis de filósofo. Ou seja, aceitar suas formas ideais, imortais e perfeitas que existem de modo sublime, além do mundo material. Ele espera minha decisão. Não clamo por misericórdia, nem demonstro raiva, apenas estendo as minhas mãos e começo a empurrar a enorme pedra para fora do pátio. Exclamações e vaias são ouvidas, mas nada me atenta agora, apenas a pedra em meu caminho. Seu peso é enorme. Toda minha atenção e esforço são necessários para avançar alguns centímetros neste castigo. Mas para mim, o destino não é castigo. O aristocrata me ofereceu uma eternidade imutável, eu preferi me esgotar no campo das possibilidades. A pedra que eu empurro é tosca e pesada, mas mais real que a forma ideal de pedra.
Uma luz distante me ilumina. Parece que mais um dia eterno se passou. Mais um dia em que rolarei a pedra ao redor de todo esse Tártaro. Realizo uma volta completa pelos corredores cavernosos.
Uma luz distante me ilumina. Um novo dia. Entre cada esforço que meu corpo faz, olho ao meu redor. Vejo que o rei, em uma das paredes do cavernoso pátio principal, mostra aos seus discípulos mais fiéis sua concepção das formas ideais. Aponta hora ou outra para sombras projetadas na parede. Eis a ideia de cavalo perfeita – diz, quando uma silhueta passa atrás dele. Um homem santo vindo das minhas terras argelinas começa a tomar notas.
Uma luz distante me ilumina. Continuo a minha labuta e entro em um corredor que já conheço mil vezes. Passo perto de dois homens de toga que discutem. Um, o que parece ser o mais velho entre todos nós, declama que o princípio de tudo é a água, sobre a qual a terra descansa, e da qual os seres vivos dependem para viver. Já o outro, mais jovem e orgulhoso, o contradiz, discursando de forma obscura. Defende que tudo é fluxo, assim como o fogo, sempre em estado de mudança, mas permanente em si. Os dois me parecem crianças que olham o caos disperso do mundo e querem extrair verdades. Mas eu entendo essa curiosidade natural. Buscar um princípio unificador é uma necessidade humana. É uma vontade destinada a enfrentar um mundo indiferente. Meus pensamentos são interrompidos. O ancião das águas percebe minha presença, olha fixamente nos meus olhos e conclui: haverá aqui um eclipse em breve. Afirmação estranha em um lugar sem céu e sem a passagem do tempo. Me despeço deles com meus empurrões.
Uma luz distante me ilumina. Mais um dia eterno.
Uma luz distante me ilumina. A pedra, novamente. A pedra sempre.
Uma luz distante me ilumina.
Uma luz distante me ilumina. Vejo em meu caminho um homem de olhar penetrante e fortes olheiras, cabelos grisalhos penteados para trás, casaco longo, colete e uma gravatinha ao redor do pescoço. Seu semblante é de amargura. Era para eu estar feliz aqui – ele diz com um forte sotaque alemão. Pois sou aquele que iniciou a história da filosofia, e agora estou junto ao objeto de tantos estudos. Sua voz é baixa, contemplando o vazio. Indago, entre um empurrão e outro, por que ele está ali sozinho. Não há nada aqui para se aprender – ele respondeu. Aqui o tempo não passa, não há morte, não há história. E sem história não pode haver constante transformação, o vir-a-ser. Estamos presos no fixo, no estático, no ideal que esse rei tem de uma perfeição que é morta ao se pretender universal. Aqui nada é racional, pois não existe uma razão pretensamente pura fora do tempo e do espaço (soluços). O velho alemão põe suas mãos na cabeça. Ele está triste buscando um amanhã. Eu me resigno, o amanhã não existe. Sigo empurrando a pedra.
Uma luz distante me ilumina. Sigo com minha carga eterna. Chego a um canto distante da caverna e vejo um rosto familiar. Não preciso desta vez recorrer às figuras e estátuas para reconhecê-lo. Esse rosto, de grossos óculos e olhar estrábico, é o rosto de quem era um amigo. Juntos falávamos de liberdade radical, juntos fizemos resistência aos nazistas, juntos defendíamos os trabalhadores da exploração dos burgueses. Uma hora essa junção se esgotou. O Pós-Guerra apresentava visões de mundo, o poderio imperialista dos Estados Unidos e o governo revolucionário de Mao. Ele me pediu para defender a revolução chinesa, mas eu me recusei. Como poderia? Não defendia o império americano, mas também não podia abraçar um estado que condenava pessoas à morte, sendo a imposição do fim da vida o esgotamento de todas as suas possibilidades. Meu amigo me chamou de idealista, que era preciso ser pragmático, escolher o que estava dentro do possível e do real e não esperar por uma perfeição ética. No fim, ele deixou um jornalista publicar em seu jornal uma resenha devastadora de um livro meu. Exigi uma retratação, e na sua resposta ele me acusou de ser um burguês, de trair a luta por justiça social. E assim terminou nossa amizade. Agora um observa o outro nesta pós-morte, após uma eternidade de silêncios. Você agiu de má-fé – ele finalmente disse. Criou desculpas para evitar a responsabilidade que a sua liberdade acarreta. Repliquei – a minha liberdade não abre mão de princípios morais. Você diz que devemos agir livremente, sem sermos fixos, definidos por fatores externos, mas defende um poder autoritário que elimina não só uma vida autêntica como também todas as possibilidades de vida na morte prematura (ele ri). Em tom jocoso, ele acende um cachimbo e me olha profundamente. Até mesmo depois da morte, você insiste que é livre. Mas não escapará do meu olhar. Eu o vejo como um desonesto, sempre verei. Aqui neste inferno, a sua punição não será essa pedra, será o meu olhar. O inferno são os outros – conclui. Recomeço a empurrar a pedra. Pois olhe o quanto quiser – retruco em pleno esforço físico – nem a indiferença dessa pedra nem o olhar dos outros pode me fixar. Nos separamos, por fim, agora eternamente.
Uma luz distante me ilumina. Começo a dar nomes para cada estalagmite. Olá Jacques, olá Pierre.
Uma luz distante me ilumina. Desta vez me incomodo com essa luz constante. De onde ela vem, neste espaço fechado? Me afasto aos poucos, eu e minha companheira rochosa, do pátio real e sua parede de sombras. Começo a seguir o pequeno facho de luz. Sigo-a em novos corredores, em uma ladeira que começa a ficar íngreme. O peso da pedra aumenta aos poucos diante da pequena inclinação. Redobro meus esforços. O facho de luz fica mais forte conforme aumenta a inclinação dessa subida até o topo da caverna. A rocha parece agora uma montanha, o próprio mundo querendo se opor a mim. Sigo firme em meu propósito, chegar ao fim dessa rampa iluminada. A luz já não se esconde mais, ela transborda, eu vejo de onde ela vem: uma abertura circular na extremidade da caverna, pouco maior que um homem. Basta chegar ao fim da ladeira que poderei sair da caverna e ver a fonte de luz em sua plenitude. Percebo então que será o fim do absurdo, do mundo indiferente. Ali, tão perto de mim, está o que o rei pregava, aquilo que ordena o mundo. Não haveria mais o caos, encontraria lá fora, na luz, o sentido da vida. E o que encontraria afinal? O Deus eminente de Abraão? O Deus-Natureza imanente de Espinoza? O Uno de Parmênides? A causa não causada? O princípio que move a todos mas é imóvel em si? Talvez até o próprio absurdo divinizado como um deus? Ou quem sabe uma tartaruga enorme a sustentar o mundo. E embaixo dela infinitas tartarugas. Não importa, basta acessar a saída da caverna, ver a luz e ter acesso a toda a verdade. Basta um salto no escuro e tudo será compreendido em sua eternidade. Faço um derradeiro esforço. Falta tão pouco. Meus músculos se estendem, se tencionam. É agora… Com um enorme estrondo, empurro a minha pedra até a abertura, o encaixe é perfeito. Bloqueio toda a saída, nem o mais fino facho de luz exterior se faz presente. Deixo a caverna na mais completa escuridão. Está feito. Esta é a minha rebelião. Mesmo se um mundo fixo e perfeito existir, com tudo havendo um sentido eterno, não perderei a minha liberdade nela. Só me cabe viver, e me esgotar na vida que tenho, com toda a responsabilidade que tenho de fazer dessa vida minha. Pausa para uma longa respiração… Ouço gritos. Desço a ladeira em direção ao pátio principal. Já sei o que me espera. Essa derradeira liberdade é justamente a minha condenação. Lá no fundo da caverna, filósofos em comoção choram, tremem, pedem a volta da luz que foi negada. Apenas o mais antigo grego, profeta de eclipses, me olha serenamente. Já o pretenso rei, com seus guardas e fracas tochas improvisadas, me reconhece, aponta o dedo em riste, me acusa de subversão, me diz mil impropriedades. Seu mundo ideal ruiu de vez, eu trouxe aos prisioneiros as sombras ao invés de luz. Ele ordena que eu volte para a saída da caverna e tire a pedra que ali deixei. Respondo…
— Não.
O tirano chama os seus guardas às armas e pede a minha vida. Não tive nem mesmo direito à defesa que os atenienses deram ao mestre desse déspota. Sou logo cercado e levado ao chão com chutes e golpes de espada. Minha carne é dilacerada, mas eu ignoro a dor. Olho ao meu redor, vejo uma multidão eufórica, plena de ódio e raiva. Fico alegre com tamanha comoção. Em meio às botas sujas com meu sangue, foco meu olhar em um detalhe insignificante. Observo uma pequena lagartixa, alheia a tudo e a todos, escalando sua parede. Acho ela bem bonitinha.
NOTA
Este conto apresenta um Platão tirano e ditadorial, tendo como base uma interpretação antidemocrática de sua obra “A República”, na qual uma utopia é alcançada por meio do governo tecnocrático de guardiães filósofos. Muitos acadêmicos, como Karl Popper, criticaram as ideias políticas de Platão como sendo aristocráticas e contra uma sociedade aberta e livre.
Essa visão antidemocrática de Platão e suas ideias tem argumentos contrários vindos de outros acadêmicos. A filósofa e pesquisadora Melissa Lane defende que Platão, em seu governo ideal, buscava fortes restrições aos governantes.
Sua interpretação é que Platão buscava a responsabilização desses guardiões, pois sabia muito do problema recursivo de quem pode julgar aqueles que julgam. E assim Platão impõe restrições de idade para esses guardiões e garante que eles sejam servos do povo, sem luxos. Ela defende um Platão constitucionalista. Ou pelo menos um Platão tardio que seria constitucionalista. Talvez sua terrível experiência em Siracusa tenha mudado sua visão?
Para quem ficou interessado, segue um link do podcast de Melissa Lane no programa Philosophy Bites (aúdio em inglês):





