Texto publicado por Jean-Frédéric Pluvinage, diretor da FoxTablet, na Revista da Acadil 2022.
Estavam todos reunidos de noite num belo sobrado ituano em prol de valores republicanos. Eram mais de uma centena de homens, principalmente políticos e cafeicultores.
— Fala galera! Disse com entusiasmo e energia João Tibiriçá Piratininga, ao presidir aquela reunião. Visão! Vai começar o papo reto!
Risos na plateia, – Manda ver! soltou Prudente de Moraes.
Subitamente e em meio a todos uma firme voz feminina reverbera, quase como a manifestação de uma vontade divina…
— Marcos… Desculpe, esse é o seu nome, certo? Marcos, você precisa entrar no personagem e falar na linguagem dele, não na sua, senão a história não funciona.
João Tibiriçá olha para o teto como se fosse realizar uma súplica.
— Foi mal, professora. É que eu não sei como eles falavam na época. Era com vosmercê?
— Hmm… Ponderou a voz que pensava nos infinitos detalhes linguísticos e históricos ao redor de uma sociedade de outro tempo. Pode falar como a gente fala, mas de modo mais formal. O importante é entrar no espírito do personagem.
João Tibiriçá voltou a fitar a plateia e, sorrindo, iniciou a reunião como se nada tivesse acontecido. — Precisamos de mais liberdade! Fim da mão-de-obra escrava! Chega de tanto abuso da monarquia!
Mais ovações. — Vamos fazer uma assembleia que irá se reunir muitas vezes em São Paulo! Vai ser legal!
Disse um dos agricultores presentes, impulsionado pela energia jovial do momento.
— Vamos fazer um jornal! — Isso! — Sim!
— Vamos formar um partido! — Com certeza! — Vamos!
A reunião prossegue com mais propostas até que a voz divina volta…
— Está bem por hoje. Desliguem seus simuladores e não se esqueçam da lição de casa em nosso website. Nos vemos semana que vem…
Os homens da reunião vão desaparecendo aos poucos, como se fossem apenas lembranças. A sala vai se esvaziando, com exceção de João Tibiriçá, sozinho na mesa. Era a terceira vez que fingia ser um estudante à distância nas aulas-simulações. A professora nunca desconfiou que era uma inteligência artificial. Mas ele sabia que era uma questão de entrar no espírito do personagem, senão a história não funciona.





