Texto publicado por Jean-Frédéric Pluvinage, diretor da FoxTablet, na Revista da Acadil 2019.
O céu tinha a cor de um fraco sinal de Wi-Fi. Era como um pensamento, uma abstração que se escondia atrás da muralha de arranha-céus das megacorporações ituanas. Prédios de mais de cem andares de arquitetura pós-paulolaraista que cercavam a Praça da Matriz. O arcaico orelhão gigante se apequenava diante daqueles monstros de concreto e metal, era um pequeno monumento ao orgulho interiorano e caipira que foi devorado pela verdadeira grandeza do capital multinacional e a cultura cyberpunk.
Naquela praça, naquela pequena ilha de parnasianismo cercada de anúncios em néons, sob uma chuva levemente ácida e um calor de 45 graus, andava Sunday Ferdinand. O jovem vracker vislumbrava os carros elétricos autônomos, os transeuntes com sua body art de tatuagens animadas por nanotecnologia, os miseráveis nas ruas que eram excluídos digitais — cidadãos que não aprenderam a programar e por isso eram programados. Ele passava por toda essa distopia com um ar blasé, acostumado que estava com essa sociedade interconectada mas que marginaliza a todos.
Sua busca era por prazeres fugidios, drogas meméticas, uma forma de escape a esse mundo cyber-ituano — “você é link de quem?”. Logo avistou seu clube de jogos virtuais favorito, uma plataforma extensa de consoles, visores e interfaces espalhados pelas paredes, chão e teto, tudo misturado a um ambiente pseudo-medieval; O estabelecimento havia se instalado em uma antiga taverna alemã e decidiu continuar com a temática.
Com um comando de voz para seu smartwear, Sunday debitou dois bitreais a um funcionário fantasiado de elfo que lhe entregou um visor de realidade virtual. O aparelho escureceu sua visão, o barulho caótico de música techno foi abafado, a realidade ao seu redor sumia como se fosse apenas um sonho ruim…
O céu tinha a cor de um azul intenso, quase natural. Era um céu livre, que cobria todo o horizonte, cercando casebres arcaicos de taipa de pilão, caipiras com chapéus de palha, facões e moringas. Naquela pequena ilha virtual andava Sunday Ferdinand. A simulação era perfeita, uma Itu colonial renderizada nos mínimos detalhes. Bastava se conectar, escolher um personagem e jogar neste complexo VR/MMORPG/OWS (Virtual Reality Massive Multiplayer Online Role Playing Game and Open World Simulator).
O avatar de Sunday era um homem branco de barba espessa, roupa de algodão e um gibão de couro de anta. Ele havia escolhido ser um bandeirante chamado Domingos Fernandes. Telas explicativas se sobrepunham à visão de Sunday, explicando o que ele devia fazer naquele mundo: eram as suas missões para ganhar experiência e bitreais.
Havia uma capela em construção naquela clareira em que estava. Era necessário ajudar a completá-la. “Uma missão de construcraft” – pensou, “basta juntar uns blocos e vou avançar na quest”.
Mas algo incomodava Sunday… Por mais abstrata que fosse aquela simplória praça, feita de pixels e polígonos, ele conseguia reconhecê-la. Esse campo aberto, de grama, terra e lama seria a sua futura (presente?) cidade de arcadismos esmigalhados por prédios futuristas. Ele se lembrou das vídeo-aulas de história na escola pública digital: seu avatar estava montando a capela que marcaria a fundação da aldeia de Utuguaçu, a futura Itu.
Ele se sentiu um Hamlet caipira no holodeck. Fundar ou não fundar a cidade? Era participante do simulador, podendo alterar a história, com toda a sua liberdade de escolha e interação. E era fruto social de um longo fio que ia de um caipira picando fumo a grupos de jovem injetando policaína no Eden Gate. Mas essa linha agora estava em seu poder, pronta para ser fiada e desfiada pela sua imaginação…
Mas, essas linhas e tramas imaginárias, de que serviriam? A cidade de metal, concreto e céu Wi-Fi continuariam existindo ali fora do visor, fora da taverna alemã. Nem mesmo a sua liberdade de fundar ou não fundar era real, apenas uma sequência de IFs e ELSEs. Era um Hamlet cuja dúvida nem mesmo importava. Aquela Itu virtual era um demônio cartesiano que simulava o céu, a capela, a aldeia e até mesmo a sua própria dúvida. Não tinha sequer direito ao seu Cogito ergo sum…
Com poucas marteladas ele terminou a capela de blocos virtuais. Lá estava fundada sua própria Utuguaçu. Sim, é uma capela virtual, mas sua experiência é verídica, tão real quanto sentir dor ou prazer. Nas paredes simples daquele templo ele hackeou sua mensagem: “Não somos as escolhas que nos oferecem, mas as escolhas que fazemos.”





