Texto publicado por Jean-Frédéric Pluvinage, diretor da FoxTablet, no livro “É de Sonho e de Pó” da Academia Saltense de Letras, em 2021.

Os raios de sol apareciam suavemente pelas frestas da janela de madeira, acompanhados do piar dos pássaros e um vagaroso canto do galo. O cheiro de terra ainda era forte, resultante da chuva intensa de madrugada. As paredes de taipa de pilão revelavam decorações diversas conforme a luz invadia o local: um pequeno oratório, quadros amarelados de uma família em trajes formais, cadeiras e cestos com palha de taboa. O cenário bucólico se completava com a figura humana que testemunhava todas estas sensações conforme acordava. Mary se espreguiçou lentamente, e com um pequeno comando verbal ordenou “Alexa, desligue a simulação”.
As luzes da janela, junto com os sons e cheiros do quarto deram lugar a outras sensações, estas mais verdadeiras. As paredes de pau a pique sumiram, trocadas por enormes janelas transparentes, que mostravam uma paisagem de arranha-céus, drones, carros voadores e hologramas publicitários. E no fundo, bem lá no fundo deste panorama cibernético, uma espécie de linha reta vertical, um fino risco prateado que ia do chão até o céu. Um dia novo estava começando em Itu.
Dia novo em folha. Robôs-coletores zarpavam pelas ruas, limpando as últimas lembranças da festa de véspera de ano-novo. Mary se levantou e olhou com sono o anúncio em neon gigante no maior prédio da cidade, que fazia seu rosto mudar de cor conforme piscava… “Feliz 3030!” era a sua mensagem em tons alternativamente rosa-choque e verde-limão.
Um rápido café com bolo de fubá — tudo pronto e feito antes dela acordar. Novas ordens para a inteligência artificial da casa: “deixe mingau de milho verde com cambuquira bem quente quando eu chegar”. Então um último afago no cão-robô e Mary já estava nas ruas, indo em direção à inauguração do novo trem espacial. “Alexa, qual o caminho mais rápido?” De repente, a rua em que estava se viu tomada de flechas, era o sistema de realidade aumentada das suas lentes de contato, sobrepondo informações digitais sobre a sua visão da realidade. “Ah, ótimo! Só dez minutos até a Praça da Matriz!”. E ela atravessou a rua sem olhar para os lados, afinal os carros agora só ocupavam os céus.
Passos largos levavam a jovem em direção até a linha prateada que dividia o céu ituano. O primeiro trem espacial do interior paulista, conectando a cidade ao espaço sideral. Um canudo apontado em direção ao céu, cujos trilhos instalados nas paredes internas podem disparar uma cápsula tripulada em direção a qualquer colônia espacial na Lua ou em Marte. Como era comum entre os ituanos, houve uma disputa sobre o nome desta maravilha tecnológica. Os mais jocosos já espalhavam a chegada do “canudão de Itu”, mas o prefeito achou melhor ser mais formal e iria batizar hoje a máquina de “trem da vida”.
“Mas quanta gente!” Mary exclamou… Saltenses, indaiatubanos e toda a imprensa transplanetária devia estar ali. Seu tio marciano já tinha dito que ia acompanhar o evento pelo radinho holográfico. A sua outra tia, a lunática, também. Ela não se lembrava de quando havia tanta gente junta assim, com tanta alegria e festa. Isso a lembrou de um fato estranho na sua época de escola, quando brincava em um ambiente virtual de história… Estava numa Itu colonial, e Mary deixou a professora falando para chutar a canela de um bandeirante, o bigodudo gritava de dor enquanto sua imagem era substituída por um homem com terno e chapéu. “Por favor, minha jovem, onde fica a casa do Barão?” disse o novo personagem em um novo cenário. Mais um chute, mais uma lamúria e ele foi logo substituido por… nada? Ruas quase vazias surgiram ao redor de Mary, nenhum personagem para ela interagir.
“Ah, a professora havia falado desse período… era preciso evitar aglomerações.” Sim, isso foi antes da popularização do computador quântico, de código trinário, que podia calcular a cura de qualquer doença em questão de segundos. Bem, para ser mais honesto, em milionésimos de segundo. As dores do passado estavam guardadas nas aulas digitais de história para não serem esquecidas — os horrores da colonização, as guerras, as pandemias. Mas hoje… Hoje era um dia de esperança.
O prefeito acenou para todos diante do palanque instalado entre a enorme linha vertical e o Orelhão de Itu, com a Igreja Matriz ao fundo. Aquele bizarro orelhão era uma antiga relíquia do passado que a cidade manteve ali na praça, talvez por pura curiosidade, mas que parecia ironicamente uma obra nanica diante dos arranha-céus e daquela enorme coluna de ferro que alcançava as estrelas.
“Começamos um dia em ano iluminado para nossa Itu! Hoje inauguramos o trem da vida!” disse o prefeito com sua voz metálica. Era o primeiro prefeito robô da cidade, um feito incrível dado que a cidade era um pouco conservadora nestes assuntos cibernéticos. Salto, por exemplo, já tinha robotizado toda sua Câmara de vereadores, e Brasília era praticamente uma fábrica. “A tripulação já está preparada para a decolação e, como prometido, um de vocês irá decolar para Marte assim que fizermos nosso sorteio!”. Ah! Mary tinha até se registrado quando visitou a página do evento, mas ela sabia que conseguir viajar para o espaço era praticamente impossí…
MARIA APARECIDA. Assim, do nada, em letras holográficas de neon acima da Igreja Matriz: MARIA APARECIDA. Mary palpitou de tanto susto. Seu nome de batismo estava ali no céu, embora usava, como a maioria dos jovens ituanos e saltenses, uma versão alternativa para as redes sociais. Ela havia sido sorteada? Será? A não ser que houvesse uma homônima…
Funcionários sorridentes surgiram ao seu redor, logo a levaram para o palanque onde recebeu um aperto de mão efusivo do prefeito-robô. “Espero que não tenha medo de altura!” ele disse, com uma leve risada. A inteligência artificial já permitia o uso de humor, mas muitos robôs precisavam atualizar seus níveis de ironia. Mary olhou para a plateia em festa e abriu um sorriso. Por que não?
E então, tudo avançou como em um sonho utópico… Junto com uma equipe de astronautas, vestindo um macacão, Mary apertou os cintos, fez uma oração e se segurou fortemente em seu assento. O enorme visor da cápsula revelava a todos as paredes e trilhos brancos do trem espacial. De repente, uma enorme pressão a empurrou para o encosto de seu assento, frio e medo pareciam querer dominá-la, mas ela era uma caipira forte, uma caipira punk arretada mesmo. E então a pressão sumiu e as paredes brancas deram lugar a um céu espacial — cada estrela um sol a iluminar o trem da vida e a pequena nave que saia dele. Com um leve impulso a cápsula iniciou seu trajeto para um futuro brilhante.
Pequeno epílogo
“Como assim há rebeldes que passaram nesta cidade querendo derrubar o governo? Nós sempre sabemos de tudo! Como eles escaparam de nós?” perguntou o prefeito-robô para seu também robótico delegado.




