Texto publicado por Jean-Frédéric Pluvinage, diretor da FoxTablet, no livro “Natureza: eu, tu, ela…” da Academia Saltense de Letras, em 2022.

Dia 01
A lousa digital se acendeu com piscadelas de neon e sons agudos. Nela apareceram as imagens das antigas criaturas. Uma lendária espécie que andava em duas patas, com a incomum característica de polegares opositores e a curiosa falta de pelos a cobrir todo o corpo. Estes seres não tinham escamas, nem penas. Eram animais de pele exposta como a gente. Mas enquanto a nossa pele é acinzentada, a deles era dos mais variados tons. Costumávamos debater o nome que essas criaturas teriam. Nossos estudantes mais ousados curtiam chamá-los de “os pelados”.
Uma sombra aparece por cima das imagens projetadas. “Bem-vindos a nossa aula introdutória de arqueobiologia!”
O professor estava animado com a presença de tantos alunos. Era uma matéria nova no ambiente acadêmico com vasto campo de trabalho e muito a ser pesquisado. Com um leve pigarro, ele foi ao pódio e se dirigiu às centenas de olhos que o fitavam. Dali, com sua cauda, apontou para as estranhas figuras nuas e bípedes na lousa e discursou.
“Arqueobiologia é a ciência e estudo do passado de espécies sencientes e suas civilizações que viveram aqui antes de nós. É também a compreensão de como essas civilizações interagiam com seu próprio ecossistema. Se era uma interação harmoniosa ou predatória. E se essa interação foi a causa ou não da extinção dessa espécie”.
Com pequenos gestos no ar, o professor movia as imagens da lousa. As criaturas logo foram substituídas por uma série de imagens. Restos de habitações em ruínas, ferramentas, pedaços de tecidos. Mas nós não estávamos querendo ver imagens. Logo viriam os dias de escavação, a oportunidade de ver presencialmente um pedaço do passado. Estava ansioso para entender a trágica história dos pelados.
Dia 10
Nossa primeira excursão acadêmica foi para mar adentro. Felizmente, nossas guelras permitem permanecer por horas submersos na imensidão azul, de modo que poderemos investigar uma antiga habitação coletiva dos pelados por meses. Nossos queridos pelados não possuíam guelras, o que fez os alunos novatos questionarem o motivo de suas antigas cidades serem submersas.
“Eram criaturas terrestres”, explicou o professor. “E viviam em grande parte em cidades costeiras, em uma época em que os polos do planeta ainda não haviam se derretido, e na qual a temperatura média era abaixo dos 50 graus.” Como eles podiam sobreviver a uma temperatura tão fria era mais um dos mistérios da nossa arqueobiologia…
Mergulhamos juntos, com nosso equipamento de segurança e pesquisa e, com rápidos movimentos de nossas nadadeiras, chegamos ao destino. Nossa primeira descoberta: uma espécie de estátua, representando essas maravilhosas criaturas e sua civilização, descansava em uma grande formação rochosa no fundo do mar como se protegesse a cidade que iríamos estudar.
Dia 15
A cidade submersa é rica em artefatos e resquícios dos pelados. Estabelecemos nosso acampamento em uma espécie de coliseu com restos de relva verde artificial. Estávamos cercados de ruínas de habitações de ferro e concreto, e carcaças metálicas que pareciam grandes quadrúpedes com patas de borrachas. Grandes postes ornados com dois arcos amarelos no topo foram vistos frequentemente entre as ruínas, e sempre apareciam ao lado de habitações que continham fileiras de cadeiras. Nosso professor já tinha uma hipótese científica sobre o assunto.
“É obviamente um símbolo religioso deles, e aquele espaço ao lado parece ser o local de louvor de seus antigos deuses…”
Dia 42
Nossas pesquisas avançam lentamente e sem respostas, como um sonar que emitimos para o vazio buscando o sentido da vida. Pelo menos conseguimos analisar a linguagem dos pelados a partir das inscrições e símbolos que resistiram ao tempo e à água. Codificamos as palavras mas ainda é difícil entender seus significados. A cidade em que estamos, por exemplo, era denominada como um rio, o que não faz muito sentido por se tratar de uma cidade e não um curso d’água. Também não entendemos o que significa a palavra “Janeiro”. Deve ser o nome do rei que comandava a cidade. Era, portanto, o rio ou a cidade dele.
Dia 92
Após longas semanas de pesquisa, tivemos nossa maior descoberta até agora: cápsulas contendo informações sobre a vida e a cultura dos pelados! Tudo graças a nossos equipamentos de pesquisa que detectaram um sinal emitido com frequência e, ao investigarmos a origem, encontramos uma espécie de câmara subterrânea contendo centenas, milhares, de invólucros de metal. Levamos essas cápsulas para um laboratório especial, desprovido de água e oxigênio, para uma ampla análise sem o risco de destruir seus conteúdos.
Minhas barbatanas estão ouriçadas de ansiedade. Não imaginávamos que os pelados eram capazes de tamanha tecnologia. Tudo que estava ali foi feito para ser preservado e descoberto. Era uma mensagem para a posteridade. Mas que mensagem seria?
Dia 190
Após meses de longa análise e codificação, finalmente conseguimos compreender o conteúdo das cápsulas. Felizmente os pelados, ou homo sapiens como eles se denominavam, tiveram o bom senso de explicar por meio de seus vários documentos todo o seu alfabeto, linguagem e cultura de forma didática. Isso facilitou e muito a posterior compreensão de sua história. As cápsulas, por fim, eram uma mensagem de alerta para que futuras civilizações não sigam a mesma história deles.
E que história trágica. Eles testemunharam a submersão de suas cidades. Mais do que isso: estavam cientes que eram a causa dessa catástrofe. Aqueceram a bioesfera em que viviam a um ponto de colocar em risco seu próprio ecossistema. Migrações forçadas, guerras e pandemias se seguiram, e junto a isso a extinção em massa de flora e fauna. Insetos que eles chamavam de abelhas tiveram um fim prematuro e com elas caiu junto todo um sistema ecológico dependente de polinização.
Não foi a destruição do planeta, nem foi um fim abrupto e apocalíptico desses pelados, mas foi uma longa e penosa mudança que eles geraram em um ecossistema que deixou de ser confortável para sua espécie. Faltou vontade política para reverter o processo nos primeiros alertas, e quando as mudanças se tornaram insuportáveis, foi possível apenas amenizar os problemas. Os que sobreviveram a essas contínuas alterações tiveram de suportar climas extremos, falta de alimentos, aumento do nível de água.
O que aconteceu com eles no final? As cápsulas não contam. Talvez tenham perecido lentamente, amargurados demais para terem filhos em um mundo tão difícil. Talvez tenham conseguido descobrir a tecnologia para viajar a outros mundos e decidiram partir para planetas em melhores condições.
Na cápsula final, uma nota sobre a incrível evolução dos golfinhos. A inteligência e a anatomia desses animais indicavam que seriam os futuros herdeiros de uma terra devastada. Em poucas gerações haviam adquirido guelras e uma inteligência equivalente ao de uma criança de três anos, com potencial para mais avanços. Uma imagem desses tais golfinhos revelou ser bastante familiar: eram aquelas figuras que sempre víamos nas aulas de história sobre nossos antepassados.
Dia 197
De volta ao meu lar, fico a pensar sobre a natureza e nossos destinos. O mundo que conhecemos hoje, tão confortável para minha espécie, foi consequência direta das ações de uma outra civilização, tão ambiciosa quanto a nossa. Bem, pelo menos obrigado pelos peixes que vocês deixaram!
Mas será que estamos seguindo o caminho deles, a ponto de também tornarmos a bioesfera atual diferente demais para nosso conforto?
Termino meu caderno de anotações por aqui, deixando minha imaginação indagar se uma futura criatura de outra civilização lerá minhas mensagens. Ei, você leitor do futuro, sim você mesmo com seus tentáculos e antenas, ou seja lá quais forem seus apêndices: saiba que a natureza é forte e sobrevive, mas nossa vontade de explorá-la será a base apenas de ruínas sobre as águas.
Abraços de golfinho!




