Texto publicado por Jean-Frédéric Pluvinage, diretor da FoxTablet, no livro “Verbo revelado : o poder das palavras escritas, ditas
ou silenciadas” da Academia Saltense de Letras, em 2023.

Aurélio virou uma cerveja. Não é uma situação confortável, virar uma cerveja. Você entra em estado líquido, seu cabelo se torna espumoso e tudo ao seu redor adquire uma coloração dourada. Mas eu só podia culpar a mim mesmo. E as palavras.
Há quinze minutos atrás, eu, Aurélio, em minha forma demasiadamente humana, estava tomando todas no bar, um escape depois de horas de estudo das artes ocultas, ars magica, ou magia para os leigos. Era uma vida difícil a de aprendiz de feiticeiro. Livros e mais livros, códigos a serem decorados. Palavras de poder: o domínio de todas as palavras que em si contêm o domínio da própria realidade.
Uma rosa com qualquer outro nome teria o mesmo cheiro doce, disse o bardo de Avon. Balela. Talvez um dia a rosa mude de nome, mas neste exato momento, neste exato lugar, ela é chamada de rosa. Esse é o poder e o limite dos magos. Cada palavra tem poder desde que ao menos uma pessoa que receba a palavra entenda o seu sentido. E eu sou péssimo para explicar sentidos. Ah, e neste momento, sou uma cerveja… Já não faço sentido. Retornemos de novo ao passado.
Ana era o seu nome, e era bela como uma rosa. Nunca entendi porque havia escolhido um nome tão simples. Como uma maga iniciante, seu nome de poder podia ser o que ela quisesse: Ísis, Atenas, Iansã, Yacy… As mais poderosas entidades. Apenas Ana. Ana bastava. Mas foi uma aluna exemplar, e comigo aprendeu o segredo das palavras. Isso há um ano atrás. Foi um aprendizado fugaz assim como nosso romance. Tinha dificuldades em entender os sentidos das palavras, transformava-as à sua vontade e alterava tudo o que eu tentava fazer. Eu dizia rosa e ela entendia pedra, ou vice e versa. Ela dizia que fazia sentido para ela. E tudo bem ser assim: a magia era algo aberto. Eu não entendia dessa maneira. Tinha me tornado tão ranzinza e duro como meu antigo mestre?
Pare de dar tantos sentidos às palavras, dizia Lácio, velho arquimago das rosas. Quando o conheci, eu ainda usava meu nome comum. E por ele aprendi o caminho da verdadeira magia. Ele conduziu meu aprendizado, mas com impaciência… Você é um mago, não um poeta. Tem de ser preciso, sem margem para dúvidas. E ele, com seu conhecimento cabalístico, de poderoso rabino, escrevia sacralmente apenas uma palavra em uma estátua de barro: ela então se movia por si só. Um golem, animado pela palavra “vida” em hebraico.
Mas o aluno não tinha a obsessão semântica de seu professor. Lácio seguia a cabala, que tinha alto apreço pelos números e a exatidão matemática. O mestre das rosas, autoritário, me batizou de Aurélio, na esperança de que seguisse um caminho mais dogmático e pétreo da magia. Nomear alguém é dotar-lhe de significado. Mas não adiantou: revoltei-me, abandonei os estudos acadêmicos, tornei-me autodidata, acreditava que podia haver magia na pluralidade dos sentidos.
A magia não precisava ser um código: deve haver uma magia de múltiplos sentidos, de camadas profundas, uma magia aberta em que cada pessoa presente pode interpretar cada palavra a seu modo… Cada junção de fonemas tendo um significado que só faz sentido no lugar e no tempo em que eu crio essa palavra. Dessa forma sem forma e desse molde sem molde, a palavra que antes era prisão, uma lista pétrea e definida, um dicionário, se torna uma rosa em minha mão. Eis a rocha que ganha vida. Meu golem. O milagre alquímico. Tenho o poder até mesmo nas palavras inventadas, nas que nunca foram ditas.
Filgegstengnetsgeglif. Estagirotamatorigatse. Tertopinopeleponipotert
Era um jovem repórter, mal saído da faculdade, mas queria ser romancista. Tamanha era a soberba da juventude: queria dominar o mundo pelas palavras bonitas, e não a crônica fria do dia a dia. E ficava no bar imaginando o grande romance que viria. Enviei um texto a amigos e colegas literatos. Um deles viu potencial em mim. Lácio ainda não tinha as barbas brancas, nem a falta de paciência. Logo me instigou a ver o poder nas palavras e me iniciou nas artes ocultas. Isso há vinte anos.
Mas por que estou me remoendo tanto, sempre indo em direção ao passado? Espere, vamos mudar o sentido… Voltar de trás pra frente.
Estagirotamatorigatse. Tertopinopeleponipotert. Filgegstengnetsgeglif
Rejeitei o dogmatismo das minhas aulas, abandonei os ensinamentos do arquimago. Em um apartamento imundo, longe de tudo e de todos, eu olhava para uma pedra e tornava-a uma pengrateretargnep. O efeito ainda era fraco. Fitava uma vassoura, dizia uma proparoxítona escabrosamente polissílaba e aquele objeto ganhava vida. Mal limpava a área de serviço, depois, cansado, o xolazenezalox já caia sem vida no chão, voltava a ser vassoura. O que faltava para alterar a realidade, torná-la maleável à minha vontade? Talvez estas palavras só faziam sentido para mim mesmo e, por isso, só conseguia alterar meu próprio universo.
Sim, era preciso alguém que pudesse receber esses múltiplos sentidos. Não adianta fazer arte apenas para si mesmo. De iniciado me tornaria mestre e faria um novo aluno compreender as minhas palavras: elas teriam ainda mais poder.
Bela como uma rosa, Ana era o seu nome. Ana bastava e era apenas Ana. Era romancista mas queria largar tudo para fazer jornalismo. Não nos entendíamos no começo. Mas ela aprendia rapidamente a Ars Magica. Ria das palavras que eu inventava. Dizia que eram longas demais, difíceis demais. Sua palavras mágicas eram simples, vulgares, comuns. Tentava ensinar a ela os sentidos das minhas palavras, ela tentava ensinar os sentidos das palavras dela. Virava um monólogo a dois, cada um em sua direção. E apesar disso, ou talvez por causa disso, extrapolamos os limites de mestre e iniciado. Dividíamos a mesma cama, os mesmos sonhos. Mas os sentidos continuavam opostos. Talvez nunca dei espaço para que ela desse sentido às minhas palavras, e vice versa. O amor deu lugar ao silêncio, a rosa voltou a ser pedra. Nos separamos.
Eu voltava para meu aparatamento imundo, xolazenezalox no chão. Disse simplesmente vassoura, aquilo se levantou, varreu a sala com perfeição e se pousou delicadamente aos meus pés.
Há quinze minutos atrás, domado por mil frustrações, Aurélio entrou no bar, e começou a beber várias. Várias cervejas diga-se de passagem, pois não era fã de omitir palavras. Elas têm poder mesmo escondidas. Olhou para o garçom com o olhar turvo e pediu um trovaroravort. Para seu espanto, o garçom deu uma piscadela e trouxe a cerveja que pedira. Pediu novamente com outra palavra de poder, e outra, e outra, e outra e mais outra. E o garçom sempre entendia. Teve uma epifania. Podia usar qualquer palavra e o sentido era sempre o mesmo. Havia dominado as palavras que sempre buscara em vão. Agora era senhor da realidade.
Como um aprendiz de feiticeiro soberbo, Aurélio perdeu o controle. Já não sabia a diferença entre palavra e realidade. Entre significante e significado. Olhava o garçom que virava um menino que virava um garçom. Olhava para o relógio e logo Cronos estava ao seu lado, com um pêndulo. O mapa é a cidade e a cidade é o mapa. Nem mesmo os pensamentos, a palavra não falada, escapava. Tudo dava voltas em torno de si, como o ouroboros místico. Criou o seu próprio labirinto e afogou-se nele.
Pensava em objetos simples e eles apareciam ao seu redor. Pensava em sentimentos e ele os sentia como se viessem dele. Pensou na Ana, a bela rosa, e ela apareceu ao seu lado, ora como Ana, ora como rosa. Não havia mais intermediação, tudo o que era pensado era concebido, tudo o que podia ser concebido já era pensado.
Aurélio percebeu que as palavras não dão sentido à realidade. Elas apenas criam a sua realidade particular. Desesperado, decidiu virar uma cerveja. Literalmente. E se encontrou em estado líquido.





