Texto publicado por Jean-Frédéric Pluvinage, diretor da FoxTablet, no livro “Elas : trajetórias femininas de coragem, resiliência e inspiração” da Academia Saltense de Letras, em 2024.

CENA 1: “A nova professora se apresenta”
INT. FACULDADE – NOITE
Corredores de um bloco da faculdade, de noite. Alunos e professores caminham e conversam entre si.
PERSONAGENS:
- Lilian Solá Santiago (Documentarista, Professora de Cinema e produtora. Mestre em Integração da América Latina pela USP. Doutoranda em Meios e Processos Audiovisuais na ECA-USP, onde desenvolve o conceito de Documentário de Ocupação)
- Alunos (Estudantes do CEUNSP – Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio – no campus Salto, no bloco da FCA – Faculdade de Comunicação e Artes)
CENA:
- Os novos professores estão se apresentando aos alunos.
- Lilian está de pé junto com seus colegas professores. Está com cabelos curtos e cacheados, uma longa saia estampada e um enorme sorriso.
- Os alunos se aproximam dos professores, observando a todos com curiosidade.
COORDENADOR: [Gestos com as mãos] E estes são os novos professores da nossa faculdade!
LILIAN: [Passos para a frente] Olá a todos! Eu sou Lilian Solá Santiago. [Sorriso] Estarei com vocês nas aulas de cinema!
ALUNOS: Uau! Que bacana!
Os alunos se entreolham entusiasmados.
[Sonoplastia: sons de burburinhos]
[Fade to Black]
Esta cena é a minha memória de como conheci a Lilian, no CEUNSP, em 2010. A faculdade de comunicação estava em seus anos iniciais e os cursos eram novos, com professores recém contratados. No início daquele ano, uma professora deixou a capital paulista para fixar residência em Salto e se tornar a nova professora de cinema.
No meio dessa energia – pessoas se conhecendo, o caos do mundo acadêmico, plena organização das aulas – aparece então o sorriso marcante dela. Com seu grande humor e alegria, Lilian lecionou para os estudantes de cinema em uma cidade que é marcada historicamente pela sétima arte na vida e obra de Anselmo Duarte. E para essa empreitada, ela já trazia em suas bagagens um enorme currículo: graduada e mestre pela USP, com passagens pela UFSCar e Cásper Líbero. Além do seu conhecimento acadêmico, havia a sua filmografia, com produções premiadas em grandes festivais nacionais e internacionais.
Meu bacharelado na faculdade foi em Jornalismo, logo, infelizmente, não pude acompanhar as suas aulas e aprender sobre cinema com ela. Mas, como redator-chefe do jornal O Arauto, publicação mensal do CEUNSP na época, pude acompanhar e noticiar sua trajetória profissional.
E foram várias as suas realizações. Em maio de 2010 – no mesmo ano em que Lilian entrava no curso de cinema – ela organizou a 3ª Mostra Espelho Atlântico, no Rio de Janeiro. Era o terceiro ano em que Lilian era responsável pela produção e curadoria de um dos mais bem sucedidos festivais de cinema negro internacional realizado no Brasil. “A mostra tem como tema a África e a diáspora negra, temas que vêm da minha atração por diretores e elencos negros”, disse ela em depoimento para o nosso jornal acadêmico.
Lilian revelava, na organização desses eventos e na direção de seus filmes, uma linha fundamental do seu olhar: a memória. Não apenas a memória pessoal, mas uma busca pela ancestralidade que compõe a história sócio-cultural das comunidades negras no Brasil, e uma forma de reapresentar, reavivar essa memória com novas mídias e tecnologias, entre elas o cinema.
Um exemplo dessa memória para o futuro foi seu roteiro, “Eu tenho a palavra”, que foi selecionado pela Etnodoc – Edital de Apoio à Produção de Documentários Etnográficos – que apoia projetos que retratam o patrimônio cultural imaterial brasileiro. A história envolve uma viagem para o país de Angola na busca das origens africanas da cultura brasileira, caso do dialeto “língua do negro da costa”, que tem raízes em Angola, e ainda é preservado em vários quilombos e comunidades espalhadas pelo Brasil.
Como professora, Lilian ajudou na formação de diversos profissionais do audiovisual, incluindo o uso de uma produtora acadêmica, a Kimera Filmes. Ela também criou um grande evento na cidade, o “Curta Salto – Festival de Cinema de Salto”, que desde 2014 realiza a divulgação e premiação dos curtas realizados pelos estudantes em eventos abertos ao público.
CENA 2: “Um olhar sobre a memória negra saltense”
EXT. PRAÇA – DIA
Praça da Matriz, em frente ao CEUNSP, com pessoas passeando pelo local.
PERSONAGENS:
- Lilian Solá Santiago (Com um grande projeto na cabeça e um sorriso no rosto)
- Jean (o autor desta crônica)
CENA:
- Lilian apresenta seu projeto que fará parte da reforma do Museu de Salto.
- O cronista ouve tudo entusiasmado.
LILIAN: Jean, como está? Preciso contar para você… Estou na organização de um projeto que fará parte das exposições do Museu de Salto, que está sob reforma. Chama-se “Casa da Memória Negra de Salto”!
JEAN: Opa, que legal Lilian! Me conte os detalhes…
LILIAN: Será fantástico. É um espaço físico com instalações multimídia que vão mostrar as origens e o cotidiano da comunidade negra saltense. Vai ter uma casa de pau a pique inteira! E videomapping, um espaço para crianças e muito mais. Gostaria que participasse como o assessor de imprensa.
Os dois seguem conversando sobre o projeto.
[Sonoplastia: sons de taperás cantando pra lá e pra cá]
[Fade to Black]
Em 2016, um grande projeto cultural foi financiado pelo Ministério da Cultura através da Bolsa Funarte de Fomento aos Artistas e Produtores Negros. A “Casa da Memória Negra de Salto” foi idealizada por Lilian Solá.
A casa foi inaugurada em agosto de 2016 e se tornou parte da mostra permanente do Museu da Cidade de Salto “Ettore Liberalesso”. O espaço conta com uma réplica de uma casa de pau-a-pique com mobiliário, fogão à lenha, oratório e outros objetos cênicos, que eram parte do modo de vida da comunidade negra saltense no século XIX. Todo esse resgate foi realizado a partir das narrativas da população local.
Murais e infográficos da mostra também revelam a diáspora dos povos africanos escravizados e levados para a América, Europa e ilhas do Oceano Atlântico, entre eles os povos Bantos que entraram no Brasil entre os séculos XVI e XIX e que ocuparam principalmente as províncias da região sudeste brasileira.
Em relação ao cotidiano de Salto, os visitantes descobrem uma história de intolerância: a segregação racial na cidade impediu que negros, mestiços e brancos, até a segunda metade do século XX, frequentassem os mesmos espaços nos momentos de lazer. Isso fez com que a comunidade negra de Salto desenvolvesse formas alternativas de diversão, como a criação da Sociedade Instrutiva e Recreativa José do Patrocínio.
A mostra se mantém viva e atuante até os dias atuais, sendo o espaço também usado para as realizações do “Sarau Café com Pretos”, evento gratuito que ocorre sempre no último domingo de cada mês e celebra as expressões artísticas e os laços da comunidade negra local.
CENA 3: “Rumo ao futuro”
INT. BIBLIOTECA – DIA
Biblioteca municipal de Salto, várias pessoas durante evento de lançamento de um livro em homenagem às mulheres.
PERSONAGENS:
- Lilian Solá Santiago (Com mais projetos na cabeça)
- Acadêmicos da AsLE (Academia Saltense de Letras)
CENA:
- Lilian e várias mulheres recebem exemplares do livro pelas mãos dos acadêmicos.
LILIAN: [Com o livro na mão] Mas estamos agora no futuro? Como assim?
JEAN: Sim! É a celebração da memória futurista!
[Lilian pega uma caneta e começa a escrever no capítulo que fala de sua vida]
LILIAN: Então vamos mexer nesse roteiro, porque tem muita coisa para comemorar ainda!
[Fade to Black e sobe letreiro]
[Sonoplastia: Sons de aplausos. Estudantes clamam o nome da professora]
FIM DA PARTE 1.
Filmografia
Balé de Pé no Chão – a dança afro de Mercedes Baptista, com Marianna Monteiro, 2005.
Família Alcântara, com o irmão Daniel Santiago, 2006.
Uma Cidade chamada Tiradentes, 2006.
Caminhos Preta (projeto Multimídia), 2008.
Graffiti, curta-metragem, 2008.
Roda o Tereré – A Erva-mate no Mato Grosso do Sul, 2009.
Eu tenho a palavra, 2010.
Batuque de Graxa, 2012.
Mulheres Bordadas – Fios do Passado, 2015.





