Texto publicado por Jean-Frédéric Pluvinage, diretor da FoxTablet, no livro “Escrever o tempo, poetizaar a passagem” da Academia Saltense de Letras, em 2025.

O fim é apenas um novo começo: aqui jaz Serafim Nascimento. Este é o meu lema ao deixar este mundo, escrito sobre o granito acima dos meus ossos. Inverno. Outono. Verão. A linda primavera que sobre o tempo passa. Em meio aos cantos dos pássaros, eles se vão, meus netos e netas, filhas e esposa, todos se despedem de mim, com lágrimas. Antes de partirem, selam a minha última casa, com paredes de pedra. A terra então é colocada na cova. Começam a inserir meus restos em um fundo buraco. Diante do meu caixão, cercado de pessoas amadas, o padre faz suas preces, contando toda a minha vida, da morte até o nascimento. O cortejo é longo até chegar a minha lápide, e o caminho é repleto de flores brancas. Lá no cemitério que eu criei, vão enterrar afinal o meu corpo.
Fecho os olhos. Sinto agora as últimas dores. Que tolo eu fui! É a incerteza que permite a vida. É no caminho entre os pontos que se faz a história. O importante não é o fim, nem o começo. Apenas inverti dois polos iguais! Queria, com arrogância, controlar a morte para controlar a vida. Nestes momentos tardios, conheço o sentido da minha angústia, quando as possibilidades partem como o voar dos pássaros. Começo a pensar no fim da vida, o destino de todos os caminhos. Minha família, em visitas, começa a se despedir de mim. O médico me informa um diagnóstico doloroso. No hospital, carrego a amargura do meu corpo enfraquecido.
De todos os futuros que determinei, nada ocorreu como planejava. A cidade que quis concluída nunca parou, abriu uma nova maternidade. As leis e códigos que queria fixas, seguem evoluindo. Minhas filhas agora são adultas, seguem profissões que nunca imaginei, e tenho netos e netas. A idade avançada chega a todos.
Fico desalentado, tão confuso ao sair daquela tenda quando entrei. Se vai ler a vida dos homens, ao menos que seja em prosa! Ah, maldito oráculo poeta! A cartomante termina sua leitura, as cartas já espalhadas por toda a mesa. Sempre é o choro no final, ela conclui. Um choro, apenas um choro. O que será que vai acontecer com o Lobo Mau? Leituras infantis feitas na cama. Um calvário invertido. Ah! E depois disso… Depois, flores brancas. Muitos beijos. O poder e a loucura. Vejo uma lápide, e nele, o seu nome, inicia a minha pitonisa! Ela vai revelar a sua sentença, que é minha salvação. A mulher acende os incensos, começa a ler as cartas, observa borrões de café. Perguntei a ela o que me aguardava no final. Teria a leitura certa da vida, por meio dos búzios, bola de cristal e demais instrumentos oraculares. Adentrei no espaço de sua cabana de mistérios. Decidi visitar Madame Cassandra, que me oferecia o futuro.
Abraçaria qualquer maldição. Ao sucumbir a mais terrível das tragédias, pelo menos teria o consolo de um futuro determinado. Ah, se eu pudesse ser Perseu ou Édipo! Pelo menos os heróis não escapam a um final antecipado. Nos versos antigos, as fiadoras do destino me trazem o doce gosto do fatalismo. Certas estavam as tragédias gregas, as únicas que eu lia em ordem correta. Comecei a me obcecar pelo meu devir.
Ou será que posso? O destino me pregou uma peça sabendo que eu não posso ler as páginas da vida. Não era isso o que havia planejado, ou melhor, queria concluir. Nenhum menino! Foi com um sorriso que a enfermeira anunciou minha terceira filha. É uma menina! Parabéns!
Não tenho nem mesmo controle sobre minha própria vida. Descobri que vivo preso a essa angústia existencial! Quando é a vitória dos heróis? Quando podemos saber, afinal, o momento do nosso ápice? A vida não é como os romances e contos, ela não revela nossa vitória depois da aventura. Percebi que minha vontade pela conclusão de tudo se esbarrava com o próprio caos humano. Estava tão certo que seria um futuro governador e, depois, presidente. O término de minha carreira política foi um choque.
Pelo menos é a certeza de onde ficarei neste mundo. Só consegui concluir uma lápide, a minha. O povo, diante de meus delírios futuristas, logo me tirou o cargo. Protestos se seguiram. Ninguém entendia minha missão quixotesca. Continuei a inventar túmulos infinitos para cada um. Trinetos e tataranetos. Futuros netos e bisnetos. Para cada filho potencial que criava, haveria também de criar sua prole. No meio do projeto, entre listas e listas de nomes, percebi que meu empreendimento era interminável. Esse casal terá uma Iracema e um Joaquim, este outro terá apenas o João. Mesmo que ainda não tivessem nascido. Incluí novas covas, com os nomes dos futuros descendentes de cada pessoa que morreria ali. Nesse empreendimento inovador, os túmulos com os nomes de todos os habitantes já viriam prontos. Seria uma necrópole diferente. Minha primeira ação foi construir um novo cemitério.
Iria deixar a cidade em seu estado final. Ao obter a vitória pelo voto, empreendi meu maior projeto. Foi com esse sentimento que me lancei candidato a prefeito. Só importa a conclusão de tudo: das leis, das cidades, de toda a vida. Nada de mudanças! Que as leis fossem prontas, fixas, imutáveis, assim como a conclusão de um livro! Mas fico ansioso e amargurado com as atualizações feitas nas câmaras e fóruns. Não há peculato antes da bigamia e nem difamação depois da agiotagem. Não há fio narrativo nas leis, todos os códigos penais existem ao mesmo tempo. Ah, a advocacia! Concluí meus estudos em direito após as núpcias. Brancas não com a esperança pelo futuro, mas por um firmamento selado no passado. E assim nos casamos, uma festa repleta de flores brancas.
Era a certeza novamente que me acalmava. Que felicidade! Disse sim! Ela, com muita estranheza, mas conhecendo meu jeito de ver as coisas, deu a resposta que esperava ansioso. Perguntei a ela se nos via casados e com três filhos, três garotos, daqui a dez anos. Teríamos filhos? Será que ela ia gostar de mim? O problema de uma relação inicial é suportar a dúvida: queria a certeza de que estava diante da minha esposa. Comecei a namorar uma moça no fim da adolescência. Odeio começos.
A revelação final eu encontrei no nascimento. No fim da minha leitura, que era o começo para todos os outros leitores, pude compreender que não se tratava de um homem comum que vencera a morte. Só depois, lendo cada frase em revés, entendi que havia o calvário e antes disso um julgamento. Uma ressureição da qual nem a sua morte eu ainda tinha conhecimento. Nesse grande livro um homem sagrado voltava para a vida, era um nascimento ao contrário. Começando pelo fim, claro. Na minha catequese comecei a ler a Bíblia.
E foi assim que caminhei por toda a minha vida. O resto é apenas saber o que foi feito para chegar a essa certeza. Obter o controle sobre a história. O que interessa é a decisão final. Não há o ser ou não ser. O fim é o fim da angústia. Pedia sempre para ela contar o fim antes de tudo. Não aguentava essa dúvida, essa espera até a resolução dos problemas. O lobo iria devorar chapeuzinho ou não? Era eu aninhado na cama e minha mãe a querer contar as fábulas. Não suportava ler, ouvir nem ver qualquer conto que desconhecesse. Nasci como uma criança ansiosa para tudo, principalmente com as histórias. Esse sempre foi meu lema desde que me dou por gente: todo começo guarda em si a semente do seu fim. Eu choro afinal. Um choro de bebê.





